segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Quanto tempo você realmente tem?

De uns tempos pra cá, 24 horas já não são suficientes pra muita gente. O dia mal dá pra cumprir todas as tarefas da agenda, pegar as crianças na escola e ter mal-dormidas horinhas de sono. Pelo menos é isto o que a maioria anda argumentando por aí. Será mesmo verdade?


Hoje andei passeando pela internet (e só de fazê-lo, já é sinal de que alguns minutos sobravavam no meu dia). Logo, aproveitei para ler algumas colunas da Revista Época On-line que me despertam grande admiração. Ivan Martins, editor-executivo, escreveu uma coluna cujo título era "O tempo é nosso amigo". Após lê-la, fiquei refletindo sobre algumas questões.

Quanto tempo realmente temos e gastamos? Não é preciso andar muito para ouvir frases como: "o dia passou tão rápido!", "não tenho tempo pra fazer mais nada" e outras mais. O questionamento do tempo ou a falta dele se tornaram frases corriqueiras e clichês. Clichês.! Era exatamente aí que eu queria chegar. Pra quem não sabe, segundo o dicionário, clichê significa - molde ou vulgaridade que a cada passo se repete com as mesmas palavras. Tenho comigo a idéia de que, tudo que se repete demais perde o valor e a essência. Se comemos chocolate demais, aos poucos ele não tem mais tanto sabor. Se a menina que lhe arracanva suspiros te liga 5 vezes por dia, ela já não é mais tão desejável. E por aí vai. Com as palavras não é diferente. As vezes tomamos gosto por dizer certas coisas. Dizemos tanto, que nem nos lembramos mais do real significado do que proferimos. E no embalo dos clichês cotidianos, repetimos pra nós mesmos, diversas vezes, que não há mais tempo. As vezes é verdade, outras não.

Já percebeu que sentimos prazer em não ter tempo? Achamos "legal" viver com a agenda lotada, almoçar com o celular ao lado pra não deixar de atender uma ligação, ficar conectado o máximo possível pra não deixar de responder ao e-mail do chefe. Pensamos que isto nos atribui status e importância. Nos torna iguais. Se vivemos correndo, somos parte do sistema. É esse o estereótipo do momento.


Enquanto escrevo este texto, penso nas milhares de pessoas que estão perdendo minutos preciosos da vida por achar que não os possui. Então, é invevitável sorrir por perceber que isto ainda não me contaminou. Não abro mão de ler bons livros, escrever, divagar, namorar no domingo à tarde. E principalmente, não abro mão da idéia de ser dona do meu tempo e não o contrário. Temo que seja isto que as pessoas esqueceram: quem está no comando. A agenda, a rotina, o trabalho é quem dita quanto tempo temos. E se eles dizem que podemos ter o fim de semana livre, logo pensamos: "Sábado e domingo são pra calendário de gente a toa, que não tem o que fazer ou com o que se preocupar. Os negócios não tiram folga." Elas podem até ser atoas, mas com certeza tem muito a fazer aproveitando a vida. E os negócios, eles não sentem, não pensam, não se relacionam e não vivem. Não precisam de horas vagas.

Aos poucos perdemos o gosto pelos prazeres da vida. Queremos ser parte de uma sociedade louca, que corre contra o tempo e faz dele um grande inimigo. Tememos em passar algumas horas fazendo o que realmente gostamos. Já não brincamos com o cachorro, já não nos permitimos banhos demorados. Colocamos a nossa mente e o nosso corpo numa auto-programação que tem nos consumido. Tememos que as pessoas nos apontem e nos discriminem por investir tempo no que realmente importa. Afinal, quem em sã consciência pode se dar ao luxo de ver o noticiário da cama?

Infelizmente somos regidos por verdades absolutas que, na prática, não passam de mentiras baratas. Enquanto acreditamos que o importante é ao final do dia, ter a sensação de que não se viveu o suficiente, minutos preciosos escorrem por entre os nossos dedos. E o mais assustador de tudo é que eles não voltam. Isto sim é uma verdade. Quando nos dermos conta do que fizemos com o nosso tempo, muito já vai ter ficado pra trás. O celular, o e-mail que antes eram tão importantes já não farão diferença alguma. E será nesta altura da vida, que apesar das muitas horas que provavelmente vão nos restar ao final da tarde, não saberemos como usá-las. Afinal, de nada vale um tempo livre se nã há amigos, cinema ou uma boa companhia pra apreciar. Eles não existirão porque estivemos ocupados demais com outras coisas que julgávamos ser prioridade. Estávamos ocupados demais brigando com o tempo, por achar que ele queria nos engolir, quando na verdade, ele queria apenas fazer amizade.

Uma das frases do texto de Ivan que eu citei acima, diz que "o tempo traz mais do que rugas e bunda caída". Interessante isto. Concluo que, enquanto enxergarmos o tempo como inimigo, ele estará do outro lado, com armas apontadas pra nós. E tudo que poderemos perceber, serão rugas, pés cansados e o resultado da gravidade em nosso corpo. Por outra perspectiva, se fazemos dele nosso aliado, as armas baixam, e assim seremos capazes de entender que, o "legal" não é nos aforgamos em tarefas e rotinas e sim pegarmos fôlego pra emergir e ver que na superfície há muito para se viver.

Um comentário:

Anônimo disse...

Belo texto, parabéns!
E fazendo um parelo a pergunta que dá no ao titulo (Quanto tempo você realmente tem?) Outra pergunta também tem que ser feita, "Como utilizamos o nosso tempo?" amigo tempo!

Guilherme Ventura