Ao lado da minha mesa há uma parede de janelas. Um monte de quadradinhos que me permitem ver a vida lá fora. Mas por causa do ivento chamado insulfilm, o mundo lá fora nem de longe sabe o que se passa no mundo daqui de dentro. Daqui onde estou, é possível ver uma árvore bem de perto. Ela não é lá tão grande, tão pouco muito frondosa. Mas é a casa de alguém. Há algumas semanas um filhote de pombo nasceu bem ali, no seu ninho aconchegante feito em um galho firme. Quando eu vim pra cá, ele já estava grandinho mas ainda era um bebê. Todos os dias ele passava horas sozinho. Ficava parado e nada mais. Nenhum movimento incomum. Ao final de todas as tardes, a mãe trazia em seu bico o alimento tão esperado. Depositava na boca do filhote, que parecia imensamente grato. Essa era a rotina dele. Aliás, essa era a vida dele. Acordar num ninho de gravetos, ficar imóvel e solitário por horas, se alimentar do bico da mãe e voltar a ficar imóvel para poder acordar no dia seguinte.
Daqui de dentro, isso era tudo o que eu via. Vez ou outra me aproximava mais da janela pra ter certeza de que não havia perdido algum detalhe importante da rotina daquele filhote. Mas nada acontecia. Enquanto isso, eu ficava a pensar um mundo de coisas. Achava a vida daquele pombo sem graça e entediante. Achava a mãe dele uma desnaturada. Afinal, que mãe larga o filho sozinho por horas a fio?! No frio, na chuva, no calor, sem saber ao menos se ele ainda estará vivo quando ela voltar? Era o que eu pensava a respeito daquele ser que, nem de longe sabia sobre mim, muito menos que eu, daqui de dentro, especulava coisas sobre o seu modo de viver.
Um certo dia, cheguei e uma colega de trabalho comentou:"Olha ele está tentando voar!". Rapidamente olhei pela janela e lá estava o pequeno pombo a bater suas asas. As batia com força e vontade, mas não saía do lugar. Isso se tornou um hobby pra ele. Todos os dias o pombo que agora já não era tão bebê, repetia o exercício de bater asas. Pra mim, mais pareciam polichinelos, pois ele não se movia um centímetro sequer. Mas, foi exatamente aí que as minhas especulações começaram a mudar. Percebi que estava equivocada sobre o modo de vida daquela criatura. Sem graça e entendiante eram adjetivos que não o definiam.
Além da parede de janelas, um processo magnifíco se desenrolava. Era a mágica da vida acontecendo. Aquela mãe, antes mesmo que eu pudesse contemplá-la, teve um imenso trabalho em construir um ninho seguro para a nova vida que colocaria no mundo. Ela teve o imenso cuidado, em aquecer o seu ovo cuidadosa e pacientemente, sabendo que, a qualquer momento, ele poderia cair e se quebrar. Mas ela não desistiu. E então, o pequeno pombo que hoje vejo, nasceu. E daí, a mãe começou uma maratona em busca de alimento. Aquela criatura dependia dela. Se ela não o deixasse sozinho no ninho, correndo o risco de ser devorado por outro bicho, ela correria o risco de deixá-lo morrer de fome sob as suas asas. Perecebi que era uma árdua, porém necessária escolha deixá-lo no frio, na chuva ou no calor, sem saber ao menos se ele ainda estará vivo quando ela voltasse.
Enquanto ela não estava no ninho, provavelmente um milhão de coisas passavam pela cabecinha do pequeno filhote. No decorrer dos dias, ele precisava tomar coragem para enfrentar os desafios que a vida lhe impunha. Um belo dia, a sua mãe podia não voltar. E aí como seria?! Sem saber o que fazer, ele ficava ali parado. Observando o lugar onde vivia. Bolando uma estratégia de sobrevivência. E um dia, por instinto ou sei lá o que, começou a bater as asas. E percebeu que podia fazer algo por si mesmo, algo poderoso mas desconhecido. Ao fim de uma tarde, a mãe não estava ali para alimentá-lo. E no desespero, ele precisou se decidir. E a opção foi a mais honrosa de todas. Num subto bater de asas, pela primeira vez o pombo se moveu. As garras se soltaram do galho e ele alçou vôo rumo ao céu. E lá ele descobriu a liberdade. Foi viver num mundo diferente do que ele conhecia, diferente do que era possível ver pela minha parede de janelas. Um mundo que agora era só dele e de mais ninguém.
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Queria muito acabar o texto aí, mas deixaira em mim a sensação de estar entalada... Então, para que as palavras se desenrolem e não façam nó na minha garganta, preciso dizer que a vida do pombinho muito se parece com a de nós humanos. Nascemos dependentes de um outro ser para nos alimentar e proteger. Passamos algum tempo ali, sem nos mover e poder fazer algo novo. Não porque não podemos, mas porque ainda não sabemos fazê-lo. Aos poucos, nos desprendemos daquele ser tão importante. Precisamos arriscar e aprender por nós mesmos o dom da sobrevivência. No desenrolar da coisa, nem nos damos conta de que, em algum lugar, alguém nos observa por uma janela. Especula sobre nossas atitudes, ações e reações.
E assim como aquele filhote, as vezes é necessário passar por grande dificuldade para descobrir o nosso potencial. Na verdade, pássaros nascem com o dom de voar, mas só o descobrem quando tomam a decisão de sair do ninho. Nós somos assim. Nascemos com aptidões e dons incríveis, que passam anos enterrados porque jamais tivemos a ousadia de descobri-los. E enquanto isso, pessoas nos julgam como fracos e algo desconhecido porém libertador nos aguarda.
Hoje, passo os dias a viajar dentro de mim mesma. A explorar essas coisas que me são inertes e eu nem sabia. Passo a brincar de caça ao tesouro. Porque sei, que quando encontrá-lo, serei capaz de alcançar tudo o que eu quero. Poderei conquistar um mundo além do que os meus olhos e limitações me permitem enxergar.
Irei tão longe que me surpreenderei ao ver, que bastava sair do ninho, para saber que posso voar.
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