sexta-feira, 26 de novembro de 2010

E o Rio de Janeiro continua lindo...

Qualquer pessoa normal e antenada às notícias atuais provavelmente, neste exato momento,me julga como louca e desinformada só pelo título. Não, eu não sou louca (não esse tipo que você está pensando) e sim, eu leio jornais diariamente.

Domingo, 21 de novembro. Seis homens armados de fuzis incendiaram dois carros na Linha Vermelha, no início da tarde. Os criminosos ainda dispararam várias vezes contra um carro da Aeronáutica. Ninguém se feriu... Não naquele dia. Uma onda de violência estava por vir. O primeiro incêndio era só um aviso. A cidade maravilhosa entraria em guerra. A ficção saltou das telas para as ruas. É mais do que real, é surreal.

'PF reforça Bope na patrulha do Alemão e da Vila Cruzeiro','Bope prepara nova ação na vila Cruzeiro', 'FHC defende política de enfrentamento ao tráfico no Rio', 'PM do Rio confirma mais um ataque na madrugada desta sexta'. Estas são apenas algumas manchetes, de apenas um jornal, apenas desta manhã. Apenas uma "degustação" do que temos visto, ouvido e lido nestes dias que entrarão para a história do Rio de Janeiro. Nunca houve uma operação militar tão grande como esta. Desta vez os bandidos não estão brincando. E as forças armadas sabem disso.

Em uma semana, o Rio tornou-se notícia internacional e alcançou seu lugar nos Trends Topics. Não se fala em outra coisa. O mundo todo tem acompanhado o terror que se alastra por lá. Mas o que realmente desperta o interesse das pessoas, da policía e da imprensa? O tráfico? Os bandidos? O drama que aquelas pessoas estão vivendo? A coisa toda? Ou será só sensacionalismo barato? Afinal, tráfico e bandidagem não são novidades pra ninguém. Tão pouco a Rocinha se tornou a maior favela da América Latina da noite pro
dia. A verdade é que, se não tiver sangue no asfalto e carro pegando fogo duas, três vezes ao dia, é acidente do cotidiano. E se é do cotidiano não chama atenção da polícia, muito menos do governo.

O que acontece no Rio hoje, é reflexo de anos de um governo corrupto e alienado. Eu não era nascida no governo de Leonel Brizola (1983-1987) mas a internet me permite pesquisar sobre ele. E com certeza há quem se lembre dos (mal) feitos dele enquanto esteve no comando. A capital fluminense era marcada pela relação desumana entre policiais e moradores da favela. O detalhe é que nessa época, apesar do terror que os policiais faziam no morro, eles entravam na favela pra prender bandido e não gente inocente. Porém esta não era a visão de Brizola, que encarava a violência como mazela, fruto de desigualdades sociais que nada tinham haver com o governo. Se eu existisse, lembraria à ele de uma pequena coisa: desigualde social é resultado de um sistema econômico precário, administrado por pessoas diretamente ligadas ao governo. Mas eu nem ninguém teve coragem de dizer a verdade. Brizola reprimiu a ação da polícia na favela e concentrou-se na segurança burguesa. Cá pra nós, quem anda de carro blindado e três seguranças, não precisa de escolta policial.


Sem policial pra invadir o morro e efetuar prisões, os bandidos sentiram-se donos do pedaço. Sempre foi assim. Quando o gato sai, o rato faz a festa. Medidas como esta, deram chance para o tráfico atingir proporções que mais tarde seriam incontroláveis. Não estou dizendo que o Brizola tem culpa do caus que assola o Rio. O pobre coitado errou, mas não precisa ser crucificado. Ele abriu as portas, mas governos posteriores poderiam fechá-las. Mas não fizeram. Hoje, o Brasil faz parte de uma rede de tráfico internacional. Os peixes grandes lá de fora encontraram aqui facilidade pra atingir lucro fácil e prosperar o negócio: aviãozinho, vendedores e uma rota de saída fácil. O circo estava armado.

O tempo passou, a violência e o tráfico cresceram. O perfil do mundo das drogas mudou. Hoje não é só culpa do governo. É um problema muito maior. É uma teia imensa, na qual o sistema político vigente tornou-se só mais um fio no emaranhado. Fio importante, mas não crucial. As favelas estão lotadas de quadrilha com um armamento tão pesado, que se bobiar nem o exército tem. De onde elas vem? Outro fio no emaranhado. Os traficantes ganham cada vez mais dinheiro com a venda de drogas, se não fosse assim, eles já teriam arrumado outro meio de sobreviver. O que confirma que, o ramo dá lucro. E o dinheiro que financia esse negócio todo, vem da mão de muito pivete que assalta pra se drograr. Mas a maior parte dele, vem do bolso de muito playbozinho politicamente correto que anda por aí bancando de bom moço. Vem da maleta de muito cara engravatado que se acha melhor do que os outros. Eles não deixam a coisa toda acabar. E depois vem dizer que bandido e traficante devia morrer. No fundo, não é o que eles querem. Se o tráfico acabar, quem é que vai promover as viagenzinhas e alucinações que eles tantam gostam?


Esta é a realidade. O que tá no noticiário é reflexo de uma sociedade doente. Alienada de princípios e valores fundamentais. A culpa é minha e sua que se cala toda vez que o assunto vem à tona. É da população fluminense que só olha pro próprio umbigo. Nós somos co-autores dessa tragédia. A diferença é que nós assistimos pela tela da TV e eles pela janela do quarto. Quanto vale o drama dessas pessoas? Quantos mais precisam morrer?

O fantasma que assombra que assombra o Rio, algemas, armas ou carros blindados não podem deter. Não se aprisiona ou mata o caráter de ninguém. Pessoas que promovem o horror que temos visto nesta semana não são como nós. Elas já perderam a capacidade de sentir, a vontade de viver. As atitudes mostradas, são reflexo do que há dentro delas. Nós criamos isto. Uma sociedade egoísta e hipócrita. Sem condições de sobrevivência, sem dignidade. Geramos pessoas capazes de tudo, absolutamente tudo por muito pouco. Eles estão em guerra, mas não sabem ao certo contra o que ou quem. Enquanto isso pessoas morrem.

As vezes tenho contade de não ver mais jornal pra sentir-me menos culpada e com menos vergonha do país em que vivo. Aqui, é a prova viva de uma frase que diz que "para o triunfo do mal, basta que o bem não faça nada". Ou se fazemos, ainda é pouco. Não foi o suficiente pra acabar com este episódio que se arrasta há anos pela história do Brasil. Entra e sai governo e nada muda. Aliás, o que muda é o tamanho da (perdoem a palavra) merda que fica pra limpar. Ninguém age de forma coerente e sensata. A moda é fechar os olhos, cruzar os braços e empurrar o que der com a barriga. 

Mas, sim, o Rio de Janeiro continua lindo. As praias e as cariocas bronzeadas continuam lá. O corcovado, o arpoador e o Pão-de-Açúcar ainda estão entre os pontos mais visitados do Brasil. O Cristo ainda é uma das sete maravilhas do mundo moderno. O que falta, é estender tamanha beleza à alma das pessoas. Daqueles que se dizem humanos e fazem guerra com as próprias mãos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Tenho como ponto mais importante do seu texto a hipocrísia de todos, hoje muitos dos que pedem paz no rio, que pedem justiça, são o que finiciam tudo isso, são os que mantem essa merda "fresca".
O problema vai muito além de Brizola, até porque se olharmos governos anteriores vamos ver que o problema começa bem antes da colonização. Educação talvez seja a palavra chave, plano de educação a longo prazo, eficaz e claro fim da impunidade, fim do parcimonia com usuarios de Drogas, sim eles tem um grande importancia nessa guerra.

Ótimo texto

Guilherme Ventura

Vinícius disse...

Texto excelente!

Em outras palavras, "O Rio de Janeiro continua lindo" para aqueles que estão de olhos totalmente fechados para a realidade.

Parabéns, prima.

Vinícius
@vihred