Eram exatamente 06:28 da manhã. O telefone tocou. Antes mesmo que eu pudesse levantar, ouvi o choro da minha mãe. Ali da minha cama mesmo, eu já sabia o que era. Os pensamentos por um momento fugiram da minha cabeça. Minha mãe abriu a porta e antes que ela abrisse os lábios eu mesma já tinha afirmado o fato. Ela chorava como se fosse o filho dela. Os pensamentos que tinham fugido da minha mente, agora vieram em bando. Não consegui assimiliar nada ( e ainda não consigo).
Mãe nenhuma nesse mundo está preparada para enterrar o próprio filho. Ser humano nenhum está preparado para enteder a morte de um jovem de 26 anos que era um amor de pessoa. A vida as vezes nos prega essas peças. Consome com a nossa alegria em instantes. Deixa um milhão de dúvidas no ar.
Nós não éramos assim tão próximos... A maioria de nossas conversas eram virtuais ou por telefone. Mas ainda assim eu podia sentir a alegria que era própria dele. Um menino que encantava a todos. E que agora, simplesmente já não pode fazê-lo. Não sei exatamente o que sinto... Na verdade ainda estou tentando assimiliar o que aconteceu. Me pergunto porque Deus permite que certas coisas aconteçam na vida de pessoas como ele, como a família dele. Mas logo percebo que tais questionamentos não cabem a mim... nem a ninguém. Então, me apego a certeza de que Ele sabe exatamente de todas as coisas que se passam nesse nosso mundo louco. E nada, absolutamente nada acontece sem um propósito. Confesso que as vezes eu mesmo me pego duvidando dessa verdade. Principalmente quando penso na mãe dele, que além de ter que absorver a idéia de que perdeu um filho, precisa arranjar forças pra não ter vontade de morrer também. Precisa de forças pra resolver as burocracias, pra receber as pessoas, atender os telefonemas e ainda ser mãe para os outros dois filhos. Parece ser mais do que uma simples mulher pode suportar. Porém, acho que mãe não é um ser humano qualquer. Elas tem um força incomum que ninguém jamais será capaz de compreender. E é por isso que eu sei, que algum dia, ela voltará a sorrir... ainda que carregue para sempre a imagem do filho e a dor que um dia sentiu.
Nunca gostei de velórios, enterros e coisas do tipo. Mas não sei porque, sinto uma necessida estranha em ir ao dele. Será, talvez, o primeiro que eu vá por vontade própria. Não sei qual será a minha reação e sei ainda menos o que dizer quando estiver lá. Tenho pra mim que não há palavra nesse mundo que conforte alguém em situações assim. Acho também, que a simples presença, por si só, já diz muita coisa. Já demonstra preocupação, afeto. Mostra que apesar do medo, do receio e tantos outros sentimentos estranhos que nos invadem nessas horas, você está ali. E isso já é o suficiente.
Seguirei o dia assim. Envolvida por uma tristeza que eu não sei medir e por sentimentos complexos demais para serem defeinidos. De alguma forma, tento preparar a minha mente para o que verei mais tarde. Sei que é em vão... Tentarei também enxergar as coisas sob uma outra perspectiva. Uma que seja mais serena e menos julgadora e revoltante. Seguirei pensando que pra Deus, ele se foi exatamente na hora certa. Mas para nós que ficamos, sempre terá sido cedo demais...
.
(Sei que você está em lugar muito melhor do que este mundo injusto...)
.