quinta-feira, 8 de outubro de 2009

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"Algo está errado se acordamos na segunda-feira pela manhã e já estamos atrasados, já estamos devendo, já estamos cansados. Ainda que excitados com o que estamos fazendo, como é o meu caso. Algo está bem errado quando a vida vira uma sucessão de tarefas, mesmo que as tarefas sejam bem interessantes. Algo está errado quando até o lazer se torna uma tarefa. Algo está muito errado quando precisamos marcar na agenda para passear com os filhos ou namorar. Algo está definitivamente errado quando precisamos pensar para lembrar do que vivemos no dia anterior.

Não sei se acontece com você, mas tenho sentido falta de viver o que vivi. O que vivo. De sentir o tempo passar. De ter tempo para elaborar o vivido. E também de ter tempo para ficar no vazio, apenas contemplando o silêncio dentro de mim.

Não gosto quando os dias se tornam uma sequência de ruídos, de luzes que piscam em telas variadas, simulando uma falsa urgência, exigindo atenção. Não gosto de me sentir consumida até que o tempo se esgote dentro de mim. Ano após ano que acaba no meio, ano após ano que acaba rápido demais.

Como disse um filósofo, o tempo é uma criança que brinca com ossos. É preciso não esquecer. Um dia tudo vai mesmo acabar, e não queremos perceber nesse último momento que nossa vida foi consumida. Ao final de cada frase desse texto deixo para trás minutos mortos, vida que se foi. Quero, então, ter certeza que não me deixei consumir. Quero ter certeza que vivi cada um dos meus segundos.

Não lembro qual foi o pensador que disse essa frase: “Nem todos os anos que passam se vive: uma coisa é contar os anos, outra é vivê-los”. Como se conta então os anos que começam a acabar no meio?

Tempo é tudo o que temos. Se não temos tempo, nada temos. Só um ano que acaba no meio e passa rápido demais.

Ao dizer que não temos tempo, o que estamos dizendo é que não temos subjetividade. O que vivemos não foi sentido. Se não é sentido, não é vivido. Se não é vivido, não há sentido.

Quando o tempo vai parar de passar rápido demais? Talvez, Reginaldo, quando pararmos um minuto para termos, de fato, um minuto. Quando nesse minuto nos dermos conta que, ao final dele, estaremos um minuto mais mortos. E, então, nos apropriarmos do nosso tempo para viver segundo um calendário próprio – e não segundo as leis de uma agenda que nos aliena daquilo que sempre foi nosso. Daquilo que é nossa única riqueza ao nascer, quando então começa a contagem regressiva da nossa vida. Essa existência sem nenhuma garantia, que pode ser interrompida a qualquer momento. Por isso viver sentindo que se vive não é algo adiável para amanhã.

Acredito muito na resistência pelos detalhes, começando pelas pequenas coisas. Vou desligar o celular nas refeições, quando chegar em casa, nos fins de semana. Quero reservar um tempo determinado para verificar e-mails, responder conforme minhas possibilidades. Pretendo me tornar mais seletiva na hora de buscar informações na internet. E levantar para conversar com alguém que está perto em vez de mandar um e-mail ou um torpedo. Quero voltar a ter mais tempo para livros, filmes, viagens por estradas reais e pessoas que amo.

Só desejo ser o deus do meu tempo. Às vezes vou passear por blogs, twitters, chats que valem a pena. Mas não moro lá. Quando olhar para mim mesma, espero não ver nada piscando nem buzinando. Não quero mais ser inquilina de outros mundos. Só aspiro agora habitar minha própria vida.

Parei. Meu ano acaba em dezembro e não passa rápido demais."

(Eliane Brum)

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