Vestibular. Mercado de trabalho. Filhos. Ganhar o mundo. Ficar por aqui. Ser alguém melhor, ou simplesmente não sê-lo. Mudar de vida. Mudar de hábitos. Escolher. Decidir. Optar. Um universo inteiro de opções.
Dizem por aí que a gente precisa viver um dia de cada vez. E que o futuro, é algo longíquo demais pra ser digno de ocupar a nossa mente. Quisera eu tomar tais palavras como verdades absolutas, e torná-las um princípio a ser seguido. Quisera eu que o futuro fosse apenas uma multidão de possibilidades remotas, que não precisam ser levadas a sério. Bom, não é o caso. Aliás, se tem um lugar que o futuro (o meu futuro) está longe de ocupar, é aquele bem lá no fundo do palco, onde os olofotes não são capazes de iluminar.
De uns tempos pra cá, pode-se dizer que ele deu pra ser protagonista. E veio com tudo. Ai de quem queira roubar a sua cena. Lá no meio do palco ele se diverte. Constrói seu monólogo numa performance quase impecável. O quase se encaixa por um pequeno detalhe: ele entrou na hora errada. As falas agora interpretadas com tanta convicção deveriam ser ditas pelo menos uns dois anos depois.
Mas tudo bem, já que o senhor espertinho está lá em cima, porque não sentar na primeira fila e curtir o espetáculo? Inquietante. A interpretação me provoca frio na barriga, e faz a minha cabeça girar. Sinto-me como se estivesse em meio há uma torcida enorme, sendo a única a torcer quando todos estão calados. O tal futuro as vezes me espanta. Ele me deixa lá, me remexendo na cadeira, com as mãos suando. Não sei por quanto tempo mais posso vê-lo lá em cima, impetuoso e convicto.
O discurso é um só. Gira em torno de uma infinidade de possibilidades. Aos poucos ele apresenta a minha vida sob perspectivas diferentes. E de repente me vi ali no palco, junto com ele, como se fosse uma marionete daquele personagem persuasivo. Aliás, vi muitas de mim. Petulante! Acha que pode me apresentar a mim mesma?! Mas ele ignorava os meus questionamentos com notável ironia. E minutos depois estava ali, cara a cara comigo mesma. Era só eu e as várias versões de mim. Vi a Débora biológa, com um ar aventureiro, e o mundo todo estava ali ao seu lado. Lugares, matas e mares. Bichos e montanhas que logo se misturavam com o próximo cenário. A mesa bagunçada e cheia de bugingangas revelavam a Débora jornalista. Com lápis na boca a espera de uma nova inspiração. Na mesa ao lado, um tanto mais organizada, me vi mudar de semblante. Séria e concentrada, me via escrevendo nomes estranhos num pedaço de papel branco que levava no rodapé a seguinte inscrição: Dra. Débora Santos.
E as versões pareciam se multiplicar. Quanto mais eu olhava, mas havia pra conhecer de mim mesmo. Do meu futuro. Crianças correndo trombavam em mim. Numeros, teses, redações. Uma parte da minha vida que eu ainda não conheço, muitas que jamais vou conhecer. E entre cada uma delas.. Escolhas! Eis o pesadelo de tudo aquilo. Personagens com uma forte tendência a se tornarem vilões... E pensando nisso, olhei em volta, e percebi que o astro da noite não estava mais em cena. A cada passo que dava, determinada versão de mim me acompanhava. Eu estava no comando. Na verdade sempre estive. Ninguém mais além de mim poderia protagonizar a minha história.
As escolhas se moviam conforme eu queria. Tudo naquele imenso palco respondia aos meus comandos. E quando me dei conta disso, o futuro não ousou mais em aparecer. O presente entrou em cena, e nele, o futuro só existe nos meus pensamentos. E apenas introduz no roteiro, as infinitas possibilidades que só vão se concretizar ao meu sinal.
Os meu passos guiam as minhas escolhas.
O meu futuro se constrói nesse imenso trajeto... E ele não pode me assombrar.
Nada de desespero. Nada de espantos ou passos em falso.
Eu controlo o guidon.
... e não faz mal errar. Há tempo pra voltar atrás e escrever uma nova cena.
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